As forças da atividade literária, por Luis S. Kraus

 

Por Ivani  Cardoso (Publishing Perspectives Inovação – Feira do Livro de Frankfurt)

Luis S. Krausz navega em vários mundos e recebe elogios em todas as suas viagens literárias como professor, tradutor e escritor. Professor de literatura hebraica e judaica na USP e escritor com projetos literários elogiados e premiados, ele publicou “Outro lugar”, O Livro da Imitação e do Esquecimento”, “Desterro: memórias em ruínas”,“Bazar Paraná”, e “Deserto”.Já traduziu seis grandes romances do alemão, dois do hebraico e um do francês. Para ele, o maior desafio do tradutor é recriar o “texto oculto”, o texto que está para além do texto, mas que é tão importante, ou talvez mais importante, do que o próprio texto.

 

Confira a íntegra da entrevista:

Professor, tradutor, escritor. Em qual atividade  se encontra mais?

Minhas três atividades – a docência e pesquisa na USP, a tradução literária e o trabalho de criação literária propriamente dito são, na verdade, três diferentes aspectos de uma só atividade. Estes três aspectos interagem mutuamente, alimentam-se mutuamente. Não são atividades estanques, são diferentes maneiras de trabalhar com aquilo que me interessa: a memória, a estética, as línguas, a representação, a palavra. Na Grécia arcaica, como se sabe, tudo o que estava relacionado à música, à poesia, ao conhecimento e à narrativa era entendido como pertencente ao âmbito das Musas. Hesíodo fala de nove Musas em sua “Teogonia”. Mas havia uma outra vertente, mais antiga, aparentemente de origem trácia, que falava em três Musas: melete, mneme e aoide. Estes nomes aludem à dedicação e à disciplina; à memória e, finalmente, à poética ou musicalidade. São as forças que se somam, a meu ver, nos diferentes aspectos da atividade literária, e que dependem uma da outra para existir.

Há muitas críticas às traduções no Brasil. Quais são os maiores desafios?

Creio que o maior desafio de um tradutor, no Brasil ou em qualquer lugar do mundo, seja o de reproduzir, de alguma maneira, tudo aquilo que não é dito expressamente no original, mas que é sugerido por meio da atmosfera que paira em torno do texto original. Porque um texto literário não se faz apenas com aquilo que se escreve e sim, talvez principalmente, com tudo aquilo que não se escreve, com tudo aquilo que não é dito, mas que, ainda assim, é evocado e sugerido por meio das palavras. O texto literário possui uma parte inseparável, essencial que é o texto que está para além do texto, mas que é tão importante, ou talvez mais importante, do que o próprio texto. Penso que o maior desafio do tradutor esteja em recriar este “texto oculto”. Isto só é possível na medida em que ele for capaz de encontrar o tom certo, o estilo certo. E isto é muito difícil.

O desterro é tema de um de seus livros muito elogiado. Esse tema é muito atual, como veio a inspiração para sua obra?

Nós, brasileiros somos, quase todos, filhos, netos ou bisnetos de imigrantes. A temática da distância, da memória, da ruptura e dos afetos perdidos, faz parte da nossa cultura. A inspiração para meu romance “Desterro: memórias em ruínas”, que foi publicado há sete anos pela Editora Tordesilhas, veio de minha própria história familiar: sou neto de imigrantes e a memória de outros tempos e de um outro lugar foi sempre uma presença muito forte na minha formação, assim como a ideia de distância, a ideia de um outro mundo, onde tudo era muito diferente. Por isto desde cedo entendi que as coisas, tais quais as vemos, são apenas uma entre muitas possibilidades, que o mundo onde vivemos não é o único mundo possível e que as formas da nossa cultura e da nossa sociedade são uma entre muitas formas possíveis. Por isso sempre me interessei muito por línguas estrangeiras, por palavras estrangeiras. Já foi dito que quem não conhece línguas estrangeiras também, não pode conhecer a própria língua.

Você tem vários livros premiados. O que os prêmios trazem para o escritor?

Trazem um reconhecimento e trazem um alento. Não quero repetir aqui o já batido discurso sobre a pouca importância que se dá à literatura e aos escritores no Brasil de hoje. Mas todos sabem que é um percurso muito difícil, que exige muito. Então, os prêmios são um estímulo para seguir adiante. São como faróis numa noite longa e escura. Porque isto de escrever é também um longo e solitário caminhar pelas trevas.

Quais são seus projetos atuais. Vem novo livro por aí?

Um antigo provérbio alemão diz “rede nicht über ungelegte Eier”. Isto significa: “Não fale sobre ovos que ainda não foram postos”. Penso que sejam palavras sábias. O que posso lhe dizer é: continuo trabalhando.

O que acha do atual momento do mercado editorial brasileiro?

É difícil para mim julgar pois estou, se me permite dizer assim, do outro lado do balcão. Sou escritor e não editor. Mas vejo com muita satisfação o surgimento de editoras novas, que estão fazendo um trabalho de altíssima qualidade. E esta qualidade traz consigo muita esperança.

Como avalia a literatura hebraica e judaica? Há potencial no Brasil?

Não é por acaso que os judeus são conhecidos como “o povo do livro”. Não sei de nenhuma outra tradição cultural na qual a palavra, e em especial a palavra escrita, tenha tanta importância. Por isto, creio que a milenar história de amor entre os judeus e os livros tenha futuro – no Brasil como em qualquer outro lugar do mundo.

Quem são seus escritores preferidos?

Normalmente meu escritor preferido é aquele que estou lendo… mas os escritores que acabo lendo mais, até por causa de meu trabalho acadêmico, são os escritores da Europa Central e Oriental do século XX, como Bruno Schulz, Hermann Broch, Max Blecher, Joseph Roth, S. Y. Agnon, Aharon Appelfeld. São autores que vêm de um universo permeado por muitas línguas e pelo diálogo entre culturas díspares, que me parecem muito interessantes. Além disto, por serem escritores que se relacionam com o mundo das minhas origens familiares – o mundo desaparecido dos judeus da Europa Central – eles me são muito caros. Mas claro que há muitos outros. Dentre os brasileiros, Guimarães Rosa. Dentre os franceses, gostaria de mencionar aqui Marcel Cohen, de quem li recentemente uma pequena obra prima, intitulada “A cena interior”.

Como começou a gostar de ler?

Venho de uma família de gente que sempre deu muita importância aos livros e à leitura, portanto este é um hábito que aprendi na infância, e pelo qual tomei gosto muito cedo.

Como é o seu processo criativo?

É bem simples. Acordo cedo e trabalho seis dias por semana.

Há um trecho de algum livro que defina sua relação com a leitura e a escrita?

Há um ensaio de Bruno Schulz cujo título em português é “A mitificação da realidade”. É um texto breve, facilmente encontrável na Internet, que descreve com uma clareza espantosa o que ele entende por poética e escrita literária. Não conheço outro melhor.

 

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