O mercado editorial espanhol, por Javier Maydeu

 

Por Ivani Cardoso

Publishing Perspectives Inovação (Feira do Livro de Frankfurt)

 

O professor Javier Aparicio Maydeu, Catedrático de Literatura Espanhola e Literatura Comparada do Departamento de Humanidades, conseguiu unir formação e cultura e abriu novos espaços para a arte e a reflexão criativa na Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona. Javier trabalhou com grandes escritores e é criador e diretor do Mestrado em Publicação na UPF Barcelona School of Management, onde tem feito a diferença com seus projetos. Nessa entrevista fala sobre o mercado editorial espanhol, sobre a importância da cultura na universidade e comenta os rumos da literatura espanhola contemporânea.

 

Leia a íntegra da entrevista:

 

O sr. tem uma atuação ampla na área acadêmica e cultural. Essas duas áreas se complementam no seu trabalho?

A Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona, da qual sou professor de literatura espanhola e literatura comparada e vice-reitor de cultura, sempre pensou que o ensino ou a educação não andam necessariamente de mãos dadas com a cultura. A cultura é essencial como complemento na formação da cidadania, independentemente de quais estudos tenham escolhido e entendido a cultura, tal como definida por Maurois, bem como o que resta quando se esquece de tudo o que foi aprendido. Uma universidade que só atende a formação, e não os desafios intelectuais e o prazer estético e a sensibilidade que a cultura proporciona, é uma universidade incompleta.

O sr. foi responsável pela criação de um museu na universidade. Como funciona?

O UPF Art Track funciona como uma jornada artística interdisciplinar que abre a herança da UPF ao público e permite que os visitantes desfrutem de destaques da arte contemporânea. Entre as atrações, está uma galeria de pintura contemporânea, de artistas que vão desde Tàpies e Saura a Chillida e Barceló. Esculturas de Susana Solano e Alfons Alzamora em cenários desenhados por grandes nomes da arquitetura contemporânea. A UPF Art Track está localizada no campus da Ciutadella. É também um espaço de homenagem aos quase 120 professores, incluindo o próprio Pompeu Fabra, que foram separados do sistema universitário catalão no início da ditadura do General Franco.

Na área editorial, com quem trabalhou?

Trabalhei 15 anos com a grande agente Carmen Balcells. E tive o privilégio de representar e fazer amizade com Gabo, Vargas Llosa, Camilo José Cela, Nélida Piñon, Juan Marsé, Rubem Fonseca, Manuel Vázquez Montalbán, Cardoso Pires e Eduardo Mendoza.

Quais são os desafios atuais do mercado editorial espanhol?

Ampliar seus mercados muito mais, fazer com que a literatura e o ensaio escritos em espanhol sejam mais traduzidos, que se explorem mais os direitos de adaptação ao cinema e à televisão dos grandes bestsellersem espanhol e que os mais importantes autores espanhóis sejam conhecidos no mercado, tanto quanto possível do território de língua espanhola. E que as novas tecnologias (realidade aumentada, algoritmos …) sejam usadas da melhor maneira possível.

Como está a literatura espanhola?

Goza de boa saúde, se lê mais no exterior porque se negociam e cedem mais direitos de obras em espanhol, e alguns autores, como Javier Marías ou Vila-Matas, podem conseguir o Prêmio Nobel de Literatura, se este prêmio for concedido novamente.

Quais são os autores contemporâneos que valem a pena?

Marías, Vila-Matas, Mendoza, Villoro, Fresán, Rey Rosa, por exemplo, entre muitos outros em espanhol. Modiano, Nothomb, Magris, Richard Ford, Coetzee, Baricco, Tavares, Lethem, Eugenides, Stamm, entre outros, em outras línguas. E autores africanos e asiáticos que deveriam formar parte da bagagem de leituras do mundo ocidental.

A tecnologia influencia a leitura do livro impresso?

Sem dúvida, a leitura em dispositivos digitais fragmenta a leitura, modifica seu ritmo, distrai e provoca a perda de uma concentração necessária para determinados conteúdos. Também é certo que agiliza a consulta de conteúdos técnicos. O livro impresso, não obstante o que nos querem fazer crer, segue tendo uma grande solidez no mercado. O ideal seria ler determinados conteúdos em livro impresso (poesia, romance, ensaio universitário) e outros em livro digital (ficção comercial, enciclopédias, atlas). A convivência continua existindo e pensamos que continuará ainda durante muito tempo. Os dois modos de leitura se complementam.

Como entra a tecnologia no seu trabalho?

Google é imprescindível para buscas e consultas. O livro eletrônico é essencial para ler manuscritos no trabalho de um agente literário.

Qual é o seu gênero literário preferido?

O romance a narrativa em geral são os que eu me dedico profissionalmente como crítico literário do jornal El País, além da poesia.

Quantos livros já publicou? Pode citar os mais recentes?

Creio que já publiquei cerca de dez livros. Os mais recentes são:

El desguace de la tradición; En el taller de la narrativa del siglo XX (Cátedra, Madrid); Continuidad y ruptura; Una gramática de la tradición en la cultura contemporánea(Alianza Editorial, Madrid), e duas edições críticas de  La hierba de las noches, do Nobel francês Patrick Modiano, e de Palomar, uma das obras mestras de Italo Calvino, os dois em Cátedra.

Como analisa o horizonte editorial 2025?

O negócio do livro deve ser menos conservador, deve saber buscar talentos em outras fontes, explorar ainda mais os direitos subsidiários, saber aproveitar a globalização e pensar que editar é escolher ou comissionar e tentar que o escolhido ou gestor seja compartilhado por quanto mais cidadãos, melhor. O suporte é secundário se o conteúdo for relevante.

Tem algum novo projeto em andamento?

Fazer crescer ainda mais a UPF Art Track, que já é membro do Google Arts & Culture e do Circuito Internacional de Arte Contemporáneo, e uma edição crítica de Una comedia ligera, de Eduardo Mendoza.

Gosta da literatura brasileira? Tem algum escritor preferido?

Gosto de Rubem Fonseca, Dalton Trevisan e Chico Buarque. Também Cabral de Melo e Drummond de Andrade. A literatura brasileira é das mais vigorosas e sedutoras do mundo e merece ser muito mais traduzida e conhecida do que já é.

 

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