Desenvolver games é uma boa forma de empreender

 

Por Ivani Cardoso

Publishings Perspectives Inovação (Feira do Livro de Frankfurt)

 

Com altos índices de analfabetismo (funcional e absoluto) e evasão escolar, a inserção tecnológica das classes menos favorecidas economicamente geralmente se resume aos games e às redes sociais. Por conta dessa realidade, o desenvolvedor de games Victor Prado fundou a For Games e está atuando com sucesso na gamificação do conteúdo escolar e oferecendo cursos para jovens interessados em empreender. ‘Fazendo jogos sozinho, com pouco investimento (só um computador) e softwares grátis, há total possibilidade de se criar um jogo de sucesso”, revela.

 

 

Confira a íntegra da entrevista:

Qual a sua formação?

Fiz Direito, não havia curso de desenvolvimento de jogos na época. Porém sempre gostei de ler e já havia bastante informação disponível na internet. Costumo dizer nas oficinas que para desenvolver games, o mais importante é jogar, já que é desconstruindo com olhar crítico (e alguma engenharia reversa) que se aprende a criar.

Como começou o seu trabalho como desenvolvedor de games?

Comecei a me interessar por desenvolvimento de jogos quando tinha 14 anos, brincando com editores de mapas – ferramentas que algumas empresas criaram para os gamers poderem modificar os jogos e criar conteúdo novo. Cheguei a fazer alguns cursos de programação e modelagem em 3D, porém percebi logo que isso não tinha muito a ver comigo. Não me parecia possível que o desenvolvimento de jogos fosse restrito a essas habilidades.

Quando achou o caminho?

Foi quando descobri o Gamedesign, que é justamente a profissão mais específica e importante desse universo. O gamedesigner é quem cria a planta do jogo. Comecei a ler e pesquisar sozinho, e logo comecei a jogar com outro olhar, tentando desconstruir os games e pensar como eu teria feito diferente.

Você trabalha com uma equipe?

Dependendo do escopo do projeto, a For Games trabalha com profissionais da área. No caso dos projetos de gamificação, fazemos junto ao cliente, já que é sempre necessário ter uma série de informações para fazer uma gamificação específica para as necessidades do cliente.

Quantas oficinas você coordena atualmente e aonde?

A For Games costuma promover dois tipos de oficinas. Uma de desenvolvimento de jogos, focando em Gamedesign, e outra focando em gamificação. Atuamos principalmente em escolas, com profissionais de educação e gamers de até 25 anos, interessados em desenvolver ou curiosos com o processo.

Vocês trabalham com a área pública?

Atualmente estamos trabalhando em parceria com a Secretaria Municipal de Educação do Rio para treinar professores da rede a gamificarem suas aulas, independente do conteúdo. Porém estamos desenvolvendo cursos de gamificação em formatos diferentes e com focos em áreas diversas, do corporativo ao educacional.

Por que os estudantes gostam dos games?

O atual sistema educacional é extremamente arcaico e preza valores e competências totalmente voltados para a indústria. Resiliência e obediência são alguns deles. Quando comparamos os jogos com o sistema vigente na maioria das instituições de ensino, podemos ver claramente por que os jogos conseguem um engajamento maior. Nos jogos o processo é valorizado. O gamer inova, arrisca, encara a derrota como parte divertida e necessária do progresso. Perder não só faz parte, como é justamente o que os gamers mais fazem. A diversão acaba sendo o atrito entre o que o gamer sabe e o que ele sabe que precisa saber para avançar.

Que outros benefícios trazem os jogos?

Acredito que além dos benefícios comumente mencionados, coordenação motora, reflexos e poder de decisão, há uma série de benefícios que vem sendo provados através de pesquisas. Começando com um que é óbvio para qualquer gamer: a capacidade cognitiva. Afinal, para jogar é necessário aprender.

Poderia falar sobre as características dos jogos?

Qualquer jogo deve ter no mínimo 3 características: um objetivo, um sistema de retorno (feedback) e voluntariedade (não pode ser feito de forma obrigatória). Essa última, é o maior desafio em um processo de gamificação e é geralmente negligenciado, com os gamificadores focando em objetivos, recompensa e pontos.

Há espaço para trabalhar com desenvolvimento de jogos eletrônicos?

É fato comum que a indústria bilionária dos jogos movimenta mais do que a do cinema e música juntos. Porém poucos, principalmente no Brasil, ainda encaram a área com seriedade. Há inúmeras oportunidades profissionais ligadas aos games, e várias que não requerem nada além de mera informação e disciplina para poder empreender. YouTuber, e-atleta e crítico, são algumas delas.

Que tipo de habilidades um desenvolvedor de games deve ter?

Um desenvolvedor acaba recorrendo a diversas habilidades para conseguir lançar um jogo. Levando em consideração o crescimento das produções indie, fica claro a multidisciplinariedade que uma empresa de 1-4 pessoas precisa ter para emplacar um jogo. Porém a principal delas é o olhar crítico e interpretativo. Não há como fazer bons jogos sem ter jogado vários. É justamente nessa tecla que costumo bater ao falar, para gamers, o quão próximo eles estão de se tornarem desenvolvedores.

Quais são os temas preferidos dos jovens para os games?

Apesar de que os jogos “mobile” estejam muito popularizados (estatisticamente), estes possuem diversos nichos. Os esportes eletrônicos (jogos altamente competitivos) estão em alta, com mais visibilidade que os esportes convencionais e a possibilidade de assistir e acompanhar além de jogar.

Há novos projetos para esse ano? Você tem cursos virtuais também?

Estamos envolvendo cada vez mais escolas no nosso Torneio Intercolegial de Games: Couch Masters. É o primeiro e único torneio de games intercolegial do Rio de Janeiro e o único torneio de games do Brasil com apoio de uma Secretaria Municipal de Educação. Apesar do preconceito com games na educação, o torneio segue em sua terceira edição e não para de crescer. Temos cada vez mais escolas legitimando os games.

Estamos criando cursos de gamificação e dando continuidade aos nossos projetos sociais, usando games como ferramenta educacional ou social.

Queremos ampliar o nosso apoio à rede pública e, ao mesmo tempo, oferecer um acesso maior ao poder da gamificação, seja no trabalho ou na sala de aula.

Os professores aceitam bem as oficinas?

Há diversos professores de vanguarda, querendo inovar e aprender metodologias e técnicas novas. Porém, além do preconceito com jogos, há uma falsa noção de que para usar games na educação é necessário investimento em material. A nossa gamificação foca justamente na experiência e na intuitividade para que não haja essa barreira e muito menos a barreira normal, ligada ao aprendizado de novas ferramentas. Se o usuário da gamificação tiver que decorar para se engajar, então não é algo muito eficaz.

Qual é o maior desafio dos games no Brasil?

A Indústria dos games é vista como algo distante e inacessível para pessoas de baixa renda, como se fazer jogos não fosse uma das formas mais viáveis de empreender.  Fazendo jogos sozinho, com pouco investimento (só um computador) e softwares grátis, há total possibilidade de se criar um jogo de sucesso. A grande questão é a da falta de informação. O que leva a uma visão arcaica por parte dos pais e escolas e, consequentemente, uma descrença na própria capacidade por parte do jovem. No caso de jovens de baixa renda, há um fator de dupla consciência, onde se veem tão crianças quanto o próximo na hora de jogar, porém incapazes na hora de criar.

Para conhecer a empresa: www.forgames.biz

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